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OURO BRANCO: LÍTIO

  • 9 de jan. de 2024
  • 3 min de leitura

Atualizado: 29 de jan.

Pesquisa para criação de performance por Flavio Barollo | (se)cura humana, acerca do [Lítio] Experimento n.01 dentro da Residência Artivista ÉClima, do Megafone Ativismo, LabExperimental, Parede Viva e Condô Cultural. Voz de Aílton Krenak Imagens de Anahi Asa e Edu Marin #éclima




Sinopse


Em Ouro Branco, Lítio, um performer, vestido de terno e gravata, recebe o público com o rosto sendo progressivamente embranquecido com pó de arroz, como um preparo ritual e também como máscara social. Ele anuncia um “experimento de transição energética”, e propõe a passagem do “ouro preto”, petróleo e carvão, para o “ouro branco”, o lítio, apresentado como promessa de energia limpa. Diante do público, ele manipula um exemplar de Mata Atlântica, e conduz uma sequência de ações diretas e irreversíveis, cortando as folhas com tesourão, queimando a planta com maçarico, e destruindo o vaso com um martelete, como se cavasse até o mineral. Da destruição, ele “encontra” uma pedra de lítio e realiza uma alquimia com fogo, tentando dissolver o lítio, transformando a matéria em solução, em promessa líquida. Protegido por máscara respiratória e óculos, ele usa brocha e tinta branca para pintar o próprio rosto, a cabeça, o pescoço, o colarinho, a gravata, e também a bateria de lítio, como se o branco pudesse confirmar o triunfo de uma solução verde. No ápice, ele ergue o conjunto como conquista, conecta bateria e painel solar, e então passa a usar um celular, rolando redes sociais e falando bobagens, expondo o curto-circuito entre a narrativa da transição “limpa” e o consumo real de minérios e territórios que sustenta a vida digital. A ação termina abrindo a ironia para o público, que é convidado a filmar e fazer live, transformando a crítica em espetáculo compartilhado, e evidenciando a cumplicidade cotidiana com o próprio dispositivo que a obra desmonta.


Argumento


A performance organiza uma dramaturgia de extração em miniatura, só que condensada em corpo e cena. O gesto inicial de embranquecer o rosto com pó de arroz não funciona apenas como efeito visual, ele instala um campo político, o branco aparece como promessa de limpeza, neutralidade, progresso, e ao mesmo tempo como máscara, como tentativa de higienizar aquilo que nasce de violência material. Quando o performer anuncia o “experimento de transição energética”, o discurso vem com a forma clássica de apresentação, explicação, demonstração, só que a demonstração, desde o começo, é uma sequência de agressões à matéria viva. O exemplar de Mata Atlântica vira um território comprimido, uma paisagem portátil que pode ser cortada, queimada e quebrada para “chegar” ao lítio. A lógica extrativista aparece sem metáfora, primeiro a poda brutal, depois o fogo, depois a demolição do vaso com martelete, como se o próprio gesto de cavar, perfurar, triturar fosse o modo de operar do futuro. Encontrar a pedra de lítio e “dissolver” com fogo explicita a fantasia alquímica contemporânea, transformar destruição em solução, transformar território em energia, transformar custo em narrativa. O momento em que o branco volta como tinta e toma o corpo, o terno, a gravata, a bateria, é onde a obra amarra crítica e imagem. É um embranquecimento e uma blindagem, uma tentativa de estetizar a transição e vender pureza, justamente quando o corpo já atravessou fogo, pó, ruína. A máscara e os óculos não são só EPI, são a iconografia do trabalho tóxico que o discurso “verde” prefere não mostrar. Por fim, o uso do celular, logo após a conexão painel solar e bateria, desloca a promessa de autonomia para o vício cotidiano, a distração, a fala vazia, e faz aparecer a cadeia inteira, do mineral ao feed, do território ao hábito, do extrativismo ao entretenimento. Ao convidar o público a filmar e fazer live, a ação amplia a crítica para a esfera da atenção, do registro, e da participação. A obra não aponta só para “os outros”, empresas, governos, mineradoras, ela coloca o público e o performer dentro do mesmo circuito, o circuito do dispositivo, da imagem, da aceleração, e do consumo que precisa acreditar numa transição limpa para continuar funcionando. O riso e a ironia não aliviam a cena, eles servem para expor o mecanismo, transformar a denúncia em espelho, e fazer o público sentir o desconforto de produzir, em tempo real, a mesma máquina que está sendo questionada.



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